Nos últimos anos, poucas pragas causaram tanto impacto na cultura do milho quanto a cigarrinha-do-milho. O que antes era considerada uma praga secundária passou a ocupar o centro das decisões de manejo, sendo hoje um dos principais fatores de risco para a produtividade da cultura.
O grande problema não está apenas no inseto em si, mas na sua capacidade de transmitir patógenos, causar perdas severas e difíceis de prever, além de desafiar os sistemas tradicionais de controle.
Entender por que a cigarrinha se tornou um grande problema exige compreender sua biologia, seus danos diretos e indiretos, e as mudanças no sistema produtivo do milho.
O que é a cigarrinha-do-milho?
A cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) é um inseto sugador que se alimenta da seiva das plantas de milho. Seu ciclo de vida está intimamente ligado à cultura, sendo o milho seu principal hospedeiro.
Do ponto de vista agronômico, o maior risco associado à cigarrinha não é a sucção de seiva em si, mas o fato de ela atuar como vetor de importantes patógenos, responsáveis pelos chamados enfezamentos do milho.
Danos causados pela cigarrinha-do-milho
Danos diretos
Os danos diretos da cigarrinha estão relacionados à sucção de seiva, que pode causar:
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Enfraquecimento da planta;
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Redução do vigor;
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Estresse fisiológico, especialmente em plântulas.
Isoladamente, esses danos diretos raramente justificariam grandes perdas econômicas.
Danos indiretos (os mais graves)
O grande problema da cigarrinha está nos danos indiretos, causados pela transmissão de patógenos, principalmente:
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Enfezamento pálido;
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Enfezamento vermelho;
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Virose associada ao complexo do enfezamento.
Essas doenças comprometem o metabolismo da planta, reduzem drasticamente a fotossíntese, afetam o transporte de assimilados e provocam perdas severas de produtividade, muitas vezes acima de 50%, dependendo da intensidade da infecção e do estágio em que ocorre.
Como identificar a cigarrinha-do-milho no campo
Identificação do inseto
A cigarrinha-do-milho é um inseto pequeno, de coloração clara, com movimentação rápida e comportamento característico de “pulos” quando perturbada.
Ela costuma se concentrar:
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No cartucho;
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Na face inferior das folhas;
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Em plantas jovens, especialmente nos estádios iniciais.
Sintomas nas plantas
Os sintomas mais comuns associados à presença da cigarrinha e dos patógenos transmitidos incluem:
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Encurtamento de entrenós;
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Folhas com coloração avermelhada ou amarelada;
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Perfilhamento excessivo;
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Espigas pequenas ou mal formadas;
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Falhas severas de granação.
É importante destacar que os sintomas nem sempre aparecem imediatamente após a infecção, o que dificulta a associação direta entre o inseto e o dano final.
Por que a cigarrinha-do-milho virou um grande problema?
A transformação da cigarrinha em um dos principais desafios do milho está associada a vários fatores combinados:
Intensificação do cultivo do milho
O aumento das áreas cultivadas, especialmente com milho safrinha, criou uma condição de ponte verde, permitindo a sobrevivência contínua da cigarrinha ao longo do ano.
Sucessão de cultivos e ausência de vazio sanitário efetivo
A presença constante de plantas de milho em diferentes regiões favorece a manutenção das populações do inseto e dos patógenos.
Dificuldade de controle químico
A cigarrinha apresenta:
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Alta mobilidade;
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Capacidade de reinfestação rápida;
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Eficiência limitada do controle químico isolado.
Além disso, muitas vezes o controle ocorre após a transmissão do patógeno, o que reduz a eficiência da intervenção.
Infecção precoce
Infecções ocorridas nos estádios iniciais da cultura são as mais severas, pois comprometem toda a formação da planta e seus componentes de produtividade.
Impacto da cigarrinha na produtividade do milho
Quando a infecção ocorre cedo:
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Redução do número de grãos por espiga;
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Redução do peso de grãos;
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Plantas improdutivas ou com espigas mal formadas.
Isso explica por que lavouras visualmente “verdes” podem apresentar produtividade extremamente baixa na colheita.
Conclusão
A cigarrinha-do-milho deixou de ser uma praga secundária porque o sistema produtivo atual favoreceu sua sobrevivência, multiplicação e eficiência como vetor de doenças.
O grande desafio não é apenas controlar o inseto, mas reduzir o risco de infecção precoce, o que exige manejo integrado, monitoramento constante e decisões antecipadas.
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