atoA tecnologia de aplicação é uma das áreas mais importantes — e menos compreendidas — da agronomia. Entre pressões de manejo, diversidade de produtos, mudanças climáticas e necessidade crescente de eficiência, dominar essa etapa se tornou obrigatório para consultores, produtores e operadores.
Mas quem vive o dia a dia do campo sabe: a tecnologia de aplicação está cheia de termos, siglas e conceitos que confundem.
SC, EC, WG, Kow, DVM, espectro de gotas, pressão, inversão térmica, emulsão, suspensão…
Não é falta de inteligência. É falta de explicação clara.
Este artigo existe exatamente para isso: descomplicar a tecnologia de aplicação, mostrando de forma simples (mas tecnicamente correta) o que cada termo significa, por que ele importa e como influencia o resultado final.
Vamos lá?
1. Pulverização ≠ Aplicação
Antes de falar de siglas, precisamos ajustar um conceito base.
Pulverizar
É apenas o ato de transformar o líquido em gotas. Um ato mecânico, físico.
Aplicar
É fazer essas gotas chegarem no alvo certo, no tamanho certo, na quantidade certa, sob condições adequadas, com a calda correta e com o mínimo de perdas.
O erro está em tratar as duas coisas como sinônimos.
Uma pulverização qualquer não garante eficiência.
Uma aplicação bem-feita, sim.
2. Siglas das formulações: entendendo de uma vez por todas
Cada formulação reage de um jeito na água, se mistura de forma diferente e exige cuidados específicos. Entender isso evita incompatibilidades, precipitação, produtos “empelotando” e entupimentos de filtro.
Aqui estão as mais importantes:
PS – Pó Solúvel
Pó que dissolve completamente em água.
→ Mistura simples e estável.
SG – Grânulo Solúvel
Grânulos que se dissolvem 100% em água.
→ A versão granulada do PS.
WP – Pó Molhável
Partículas sólidas que não dissolvem — apenas se dispersam.
→ Exigem forte agitação. Entram primeiro no tanque.
WG – Grânulo Dispersível
Grânulos que se quebram em partículas pequenas quando hidratados.
→ Também entram primeiro e precisam cair pulverizados na água.
SC – Suspensão Concentrada
Partículas ultrafinas suspensas em água.
→ Sedimentam rápido, mas ressuspendem facilmente com agitação.
EC – Concentrado Emulsionável
Óleo + tensoativo → emulsiona na água.
→ Cuidado: podem encapsular partículas de WG/WP se adicionados na hora errada.
ME – Microemulsão
Emulsão com gotículas muito finas.
Pode ser:
-
óleo em água (mais comum)
-
água em óleo (emulsão invertida)
3. Entendendo o Kow: a chave para escolher adjuvantes
O Kow (coeficiente de partição óleo/água) revela se o ingrediente ativo “prefere” óleo ou água.
-
Kow alto (>1000) → lipofílico → funciona melhor com óleo
-
Kow baixo (<1) → hidrofílico → responde melhor a tensoativo
-
Intermediário (10–200) → combina bem com óleo + tensoativo
Se você não sabe o Kow, você está basicamente torcendo para acertar o adjuvante.
Quando você sabe o Kow, você decide com precisão.
4. Espectro de gotas
As gotas não têm o mesmo tamanho — elas formam um espectro.
E esse espectro determina:
-
risco de deriva
-
cobertura
-
penetração
-
efeito do vento
-
eficiência final
Os principais indicadores:
Dv0.5 (DMV – Diâmetro Mediano Volumétrico)
É o “meio do caminho”.
Metade do volume pulverizado está em gotas menores que ele, metade em maiores.
Dv0.1
Representa a ponta fina do espectro.
Gotas menores — mais risco de deriva.
Dv0.9
Representa as gotas grandes.
Gotas maiores — menos cobertura, mais impacto.
A arte da aplicação está em equilibrar esses três números.
5. Ordem de mistura: a receita de bolo da calda
A ordem de mistura é uma das maiores causas de problemas na operação.
Regra geral (simplificada):
-
Água
-
Corretores (pH, dureza)
-
WG / WP
-
SC / CS
-
SL / EW
-
EC / OD
-
Adjuvantes
-
Óleo (se houver)
Trocar a ordem pode causar:
-
empelotamento
-
decantação
-
precipitação
-
espuma
-
entupimento
-
perda de eficiência
Ou seja: não é detalhe. É fundamento.
6. Clima e deriva: quando aplicar e quando NÃO aplicar
Deriva é o deslocamento das gotas para fora do alvo — e nunca será zero.
Mas pode (e deve) ser controlada.
Pontos críticos:
Velocidade do vento
6–16 km/h → ideal
< 6 km/h → risco de inversão térmica
16 km/h → aumento de deriva
Temperatura
Preferencialmente < 30°C.
Umidade
50% sempre que possível.
Inversão térmica
É o pior cenário possível.
Se tem fumaça parada → não aplique.
Clima errado transforma uma aplicação boa em um prejuízo silencioso.
7. Aplicação aérea: faixa, distribuição e segurança
A aplicação aérea é extremamente eficiente — quando feita corretamente.
Familiarização com a aeronave
Hopper (tanque), barra, sistema hidráulico, bicos e filtros exigem inspeção constante.
Faixa de aplicação
-
Faixa total ≠ faixa efetiva
-
A melhor ferramenta para avaliar distribuição hoje: espectrometria de fio
Deriva aérea
Mitigada com:
-
gota adequada
-
adjuvante correto
-
altura de voo ajustada
-
condições climáticas favoráveis
-
eletrostática (em situações específicas)
Conclusão: tecnologia de aplicação não é sobre decorar siglas — é sobre entender a lógica por trás da eficiência
Quando você entende as formulações, o comportamento da calda, o espectro de gotas, o papel do clima, da ponta e do adjuvante, aplicar bem deixa de ser um “ato mecânico” e se torna uma decisão técnica e estratégica.
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