Pragas iniciais do algodão: impacto no estabelecimento da lavoura e no potencial produtivo
O período da emergência até o primeiro botão floral representa uma fase crítica no cultivo do algodão. Nesse momento, a planta ainda apresenta sistema radicular em formação, tecidos meristemáticos expostos e baixa capacidade de compensação. Por isso, as pragas iniciais exercem influência direta sobre o estande, a uniformidade e, consequentemente, o potencial produtivo da lavoura.
Além disso, compreender os principais artrópodes do sistema produtivo — bem como a biologia e o ciclo de vida dessas pragas — é fundamental para interpretar corretamente sua dinâmica no sistema sucessão soja–milho–algodão. Dessa forma, o produtor consegue antecipar riscos e agir com maior precisão no manejo.
A seguir, conheça as principais pragas iniciais do algodão e seus impactos no campo.
Lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus)
A lagarta-elasmo é um lepidóptero da família Pyralidae, amplamente adaptado a sistemas agrícolas tropicais. De modo geral, seu ciclo biológico ocorre da seguinte forma:
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Período de incubação: cerca de 10 dias;
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Fase larval: aproximadamente 20 dias;
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Pupa: em torno de 10 dias;
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Adulto: aproximadamente 10 dias.
As mariposas realizam a oviposição no solo ou próximo ao colo das plantas. Logo após a eclosão, as larvas penetram na base do caule, formando galerias internas.
Além disso, sua ocorrência é favorecida por:
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Solos arenosos;
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Períodos de veranico;
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Baixa cobertura vegetal;
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Áreas com solo exposto.
Como consequência, o ataque no colo da planta interrompe o fluxo de seiva. Assim, observa-se murcha repentina e morte de plântulas, geralmente em reboleiras.
Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon)
Pertencente à família Noctuidae, a lagarta-rosca apresenta hábito predominantemente noturno. Em geral, seu ciclo envolve:
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Incubação: cerca de 5 dias;
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Fase larval: aproximadamente 30 dias;
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Pupa: em torno de 15 dias;
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Adulto: cerca de 25 dias.
As fêmeas ovipositam em restos culturais e palhadas. Inicialmente, as larvas jovens se alimentam de folhas. Entretanto, à medida que se desenvolvem, passam a cortar o caule ao nível do solo.
Além disso, a praga apresenta:
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Preferência por áreas com palhada abundante;
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Atividade alimentar principalmente à noite;
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Alta mobilidade entre plantas.
Dessa maneira, o dano é caracterizado pelo corte completo da plântula, levando à morte imediata e à redução expressiva do estande.
Complexo Spodoptera (Spodoptera frugiperda e Spodoptera cosmioides)
O gênero Spodoptera reúne espécies altamente polífagas e adaptadas a diferentes culturas. Por isso, apresentam grande importância no sistema soja–milho–algodão.
De modo geral, essas lagartas apresentam:
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Oviposição em massas sobre folhas;
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Ciclo completo entre 30 e 50 dias, conforme a temperatura;
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Alta capacidade reprodutiva;
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Forte adaptação à sucessão de culturas;
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Sobrevivência em hospedeiros alternativos;
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Seleção intensificada pelo uso contínuo de inseticidas.
Inicialmente, as lagartas podem apresentar hábito de rosca. Posteriormente, passam a ter comportamento predominantemente desfolhador. Assim, em sistemas intensivos, a pressão populacional tende a aumentar ao longo das safras.
Percevejo-de-solo (Scaptocoris castanea)
O percevejo-de-solo pertence à família Cydnidae e apresenta hábitos subterrâneos. Em geral, possui:
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Ninfas com cinco instares;
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Adultos com cerca de 8 mm;
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Coloração marrom-clara;
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Pernas anteriores adaptadas à escavação.
Além disso, sua ocorrência é maior:
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No início do período chuvoso;
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Em áreas com presença de plantas voluntárias (tigueras);
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Em solos compactados.
Como resultado, o inseto suga a seiva das raízes, provocando amarelecimento, redução do crescimento e, em casos mais severos, secamento das plantas. Consequentemente, sua persistência no solo dificulta a erradicação.
Tripes (Frankliniella schultzei)
Os tripes pertencem à ordem Thysanoptera e apresentam pequeno porte e alta capacidade reprodutiva. Em geral, apresentam:
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Reprodução facilitada geneticamente;
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Postura em tecidos vegetais;
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Ciclo curto, favorecido por temperaturas elevadas.
No Brasil, o gênero Frankliniella é o mais comum. Além disso, os tripes apresentam:
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Preferência por tecidos jovens;
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Maior severidade até 30 dias após a emergência;
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Populações favorecidas por clima quente e seco.
Dessa forma, provocam raspagem e sucção dos tecidos, resultando em deformações e encarquilhamento das folhas.
Pulgão-do-algodoeiro (Aphis gossypii)
O pulgão-do-algodoeiro é um inseto sugador da família Aphididae. De modo geral, apresenta:
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Reprodução predominantemente assexuada;
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Ciclo ninfal de aproximadamente 7 dias;
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Adultos com vida média de até 20 dias;
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Formação de colônias numerosas;
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Aumento populacional após adubação nitrogenada;
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Presença ao longo de todo o ciclo da cultura.
No início da cultura, a sucção intensa compromete o vigor das plântulas e pode transmitir viroses. Posteriormente, o excesso de açúcares (honeydew) pode interferir na qualidade da fibra.
Outras pragas iniciais relevantes
Além das pragas principais, outras espécies podem ocorrer de forma pontual. Entre elas, destacam-se:
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Broca-da-raiz (oviposição próxima ao colo; larvas perfuram a raiz principal; ciclo larval prolongado);
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Cigarrinhas (alta mobilidade e danos por sucção);
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Larvas minadoras (formação de galerias no mesófilo foliar);
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Coleópteros desfolhadores (família Chrysomelidae, com impacto variável conforme a densidade populacional).
Embora menos frequentes, essas pragas podem causar danos relevantes em áreas específicas.
Considerações finais
As pragas iniciais do algodão apresentam elevada capacidade adaptativa ao sistema produtivo brasileiro. Além disso, a intensificação da sucessão soja–milho–algodão favorece sua permanência no ambiente.
Dessa maneira, compreender a biologia dessas espécies permite interpretar corretamente:
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Os momentos críticos de ocorrência;
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As condições ambientais favoráveis;
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A relação com o sistema de produção.
Em síntese, a fase inicial da cultura representa o ponto de partida da produtividade. Portanto, as pragas que atuam nesse período exercem influência decisiva sobre o desempenho final da lavoura.
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